Reportagens

Meritocracia numa corrida de desiguais

Investigador científico afirma que o conceito serve apenas para validar o desiquilíbrio social

Vinícius Paiva

Bianca Costa, 20, é mulher, negra, heterossexual e estudante medicina na Universidade Federal de Goiás (UFG). Pertencente a uma família de classe média, cursou o ensino médio em Colégio Militar no período noturno durante dois anos, além de trabalhar como Secretária Paroquial dos 14 aos 17 anos. “Apesar dos meus pais esconderem de mim, eu sabia das dificuldades de pagar a mensalidade no cursinho e resolvi estudar em casa pela internet”, afirma.

Já Marcelo Medeiros, 21, é homem, branco, heterossexual e mora em um bairro de classe média-alta em Goiânia. O estudante de medicina na UFG não trabalhou na época do vestibular, estudou em colégios caros e sempre contou com o apoio da família para sua escolha de curso. “Meu colégio era excelente. Fiz 1 ano de cursinho após o terceiro ano, e estudava praticamente o dia todo. Inclusive, por meu desempenho, recebi meia bolsa nesse período”.

Para que outras Biancas e novos Marcelos ingressem em uma universidade pública como a UFG, eles precisarão realizar o Exame do Ensino Médio (ENEM) e concorrer a uma vaga pelo Sistema de Seleção Unificada (SISU). E para equilibrar o processo para aqueles que não carregam privilégios sociais, existem diversos programas como o SISU, FIES, PROUNI. Mas mesmo em meio a tantas ações afirmativas, é possível afirmar que todas as pessoas possuem as mesmas chances de ingressar no ensino superior?

Segundo dados do Ministério da Educação (MEC), em 2014, o Brasil contava com 7.838.765 estudantes matriculados no ensino superior, sendo que deste total, 74,9% estavam vinculados a instituições de ensino privado. 55,5% do total de estudantes eram mulheres, em contrapartida, apenas 45,5% dos jovens pardos ou negros entre 18 e 24 anos estavam na universidade. Para além disso, os dados precisos quanto ao número correto de travestis e transexuais matriculados não foram relatados.

Mérito versus Meritocracia

De acordo com o dicionário Aurélio, mérito significa merecimento; aptidão; superioridade e valor moral e intelectual. Já o conceito de meritocracia consiste na forma de liderança que se baseia no mérito, nas capacidades e nas realizações alcançadas em detrimento social. Além disso, o conceito nato prega a ideia de que as posições sociais são alcançadas considerando valores, como educação e moral, além da aptidão que cada pessoa tem para determinada atividade.

Para o Investigador Cientifico no Núcleo de Estudos sobre Democracia Cidadania e Direito (DEDIDe) da Universidade de Coimbra, Jonas Modesto de Abreu, mérito como sinônimo de merecimento se enquadra numa perspectiva de conceito meramente formal. “Trata-se de uma definição de dicionário da língua portuguesa. Ela serve apenas para justificar o sucesso ou insucesso de pessoas que competem em uma situação de plena desuniformidade”.

“É preciso levar em consideração que, em regra, as desigualdades sociais decorrem da disparidade de oportunidades. No Brasil, é perceptível que os agentes que compõem o perfil das minorias sociais, em regra, não ocupam as profissões ou atividades sociais de maior prestígio”, afirma. Jonas afirma conhecer poucos alunos e médicos negros, por exemplo. Mas para ele, essa fato não é questão de meritocracia, e sim, de um longo processo de desequilíbrio de oportunidade.

Desigualdades

Conforme os dados da Pnad Contínua de 2014, pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os moradores do Nordeste do país estudam, no ensino básico, quase dois anos a menos do que as pessoas que moram no Sudeste. No Nordeste, a média de estudo é de seis anos e seis meses, no Sudeste, oito anos e quatro meses. Já no Centro-Oeste, a média é de oito anos de estudo.

Outra grande discrepância se encontra nos salários que variam consideravelmente, baseados em marcadores de gênero e raça. O Centro-Oeste possui as maiores rendas médias do país, na região, em média, uma mulher branca ganha quase dois mil reais, já a negra, pouco mais de mil e cem reais. Os homens brancos ganham dois mil e oitocentos reais, já os homens negros, ganham praticamente mil reais a menos que os homens brancos.

A partir desta informação, é possível problematizar, que Bianca e Marcelo, mesmo cursando a mesma graduação, na mesma instituição de ensino, poderão ter salários diferentes exercendo uma mesma função no futuro. E os motivos, não necessariamente seriam por competência e conhecimento, mas simplesmente por um ter nascido homem e a outra mulher e/ou por ele ter pele clara, e ela pele escura.

Mas ao analisarmos o contexto social, realmente existe uma cadeia hereditária em que o de cima somente sobe e o de baixo somente desce? Jonas, ao analisar o Sistema de Seleção Unificado (SISU), acredita que não. Segundo ele, o SISU incorpora às universidades federais, alunos oriundos da escola pública independente de suas origens étnicas ou históricas. Tal democratização, colabora para que uma parte da população possa ter ascensão social e conquiste melhores oportunidades e condições de vida.

Até o início dos anos 2000, as universidades federais ofertavam poucas vagas, e para conquistar uma delas, era necessário um elevado nível de conhecimento do candidato. “Quem conseguia pagar uma boa escola particular e um conceituado “cursinho” pré-vestibular, em regra, ficava com a vaga. Os demais eram excluídos, visto que a deterioração histórica das escolas públicas de nosso país não possibilitava que seus representantes competissem em condições de igualdade com os candidatos provenientes de escolas particulares”, relembra o professor.

Conquistar a Igualdade

O Brasil figura entre as dez maiores economias do mundo, mas ao mesmo tempo, é o oitavo maior índice de desigualdade econômica e social. Para que o país se torne uma nação verdadeiramente é democrática, é necessário partir de um ponto onde todos sejam respeitados por sua orientação sexual ou identidade de gênero, pela sua cor, pelo seu sotaque, e tenham todos uma boa condição de vida. Realidade ainda longe de se concretizar, mas que não pode ser deixada de lado.

Para exemplificar a igualdade, Jonas Modesto, utiliza duas grandes universidades, UFG e a USP. “O dia que olharmos para a foto dos formandos do curso de medicina e localizarmos uma distribuição equilibrada das pessoas que vemos todos os dias nas ruas (brancos, pretos, homens, mulheres, indígenas, homossexuais e etc.), poderemos dizer com orgulho que vivemos em uma sociedade na qual as pessoas se sobressaem pelo seu mérito”. E enquanto isso não acontecer, é necessário que o país continue buscando mecanismos de equilíbrio.

Reconhecer

Jonas afirma que reconhecer desigualdades é importante para promover o avanço do processo civilizatório e que isso não tem nada a ver com privilégios (quando alguém já tem muito, e mesmo assim continua sendo beneficiado). “Esse não é o caso de medidas governamentais que buscam, através do reconhecimento da desigualdade, equilibrar o acesso aos bens sociais mais requisitados através de uma política de equidade de oportunidades”.

Ninguém pode escolher nascer branco ou preto, rico ou pobre, heterossexual ou homossexual, mas todos esses marcadores se tornam grandes influentes na hora de se conquistar algo e ter seu trabalho ou caráter reconhecidos. Ao entender seus privilégios ou a falta deles, o indivíduo se conhece e se localiza dentro de uma configuração social que estrutura certos grupos à certas realidades. A partir disto, reflexões sociais podem se tornar mais fáceis e serem um dos muitos caminhos para a construção de uma sociedade mais igualitária.

 

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