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Dear White People e a humanização dos personagens negros

Por Vinícius Paiva

Tudo parece bastante tradicional. O cenário tem como pano de fundo uma universidade elitista dos Estados Unidos. O roteiro dramático aposta nos conflitos cotidianos dos personagens principais. No enredo, alunos com a sanidade mental em estado questionável, jovens apaixonados aflorando suas sexualidades, conflitos de amizade, entre outras temáticas rotineiras em séries produzidas nos Estados Unidos. Nada fora do comum, a não ser o fato de todos os protagonistas serem negros. Negros que foram recortados de um ambiente majoritariamente branco para protagonizarem suas histórias, sem os tradicionais clichês já apresentados pelos grandes produtos midiáticos.

Dear White People encaminha ao público histórias de personagens negros em sua real existência, explorando realidades, particularidades e pluralismos. Os personagens não existem como elementos cotistas ou expositivos, mas são o eixo central da história que explora os conflitos de cada personagem consigo mesmos, com o próximo e com o sistema. Ao construir seus personagens, a trama edifica elementos de vivências negras em cada um deles, com o intuito de mostrar como determinados equações podem ter seus resultados alterados a partir das suas variáveis.

Cheia de citações e frases pontuais, a série se inicia, assim como este ensaio, com o pensamento do crítico social afro-americano, James Baldwin. O paradoxo da educação é que ao ter consciência passa-se a examinar a sociedade onde se é educado”. Mas todos os elementos que arquitetam a série como um produto passível de análise dentro do recorte de raça só se tornam visíveis para aqueles que, ao assistirem a série, retirem seus óculos culturais para que o entendimento seja possível e dinâmico.

Sinopse

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(Reprodução: internet)

Cara gente branca, título em português, é uma trama contemporânea que se passa na renomada Universidade de Winchester nos Estados Unidos. Os protagonistas residem na própria universidade, numa fraternidade que acolhe somente pessoas negras. Os moradores lidam diariamente com o racismo institucionalizado que está enraizado e vigente dentro do campus, mas que é sempre posto debaixo das cobertas.

Porém tudo isso começa a mudar quando a personagem Samantha White, interpretada pela atriz Logan Browning, resolve colocar no ar o programa que leva o nome da série na rádio da universidade. Nele, a jovem dialoga diretamente com os estudantes ao debater questões raciais que acontecem no campus. Ao mesmo tempo, incomodados com a atração por considera-la anti-brancos, os realizadores de uma das revistas de maior alcance dentro da universidade, a Pastiche, resolvem promover durante o Halloween, uma festa Black-Face, na qual brancos se caracterizaram com estereótipos racistas atribuídos aos negros.

Personagens e suas questões raciais

Samantha White é a idealizadora do programa Cara gente branca. Negra de pele clara, a personagem tem convicção da sua identidade étnica, mas é a responsável por despertar no público o debate sobre colorismo. O termo, também conhecido como pigmentocracia, foi explorado pela primeira vez no ano de 1982, pela autora Alice Walker em seu ensaio “If the Presente looks like the Past, What Does the Future Like?”. Ao explorarmos o conceito, entendemos que quanto maior for a pigmentação na pele de alguém, mais discriminação racial essa pessoa tende a sofrer. Exemplificando: uma pessoa negra de pele clara, como por exemplo a Samantha, tende a sofrer menos racismo do que alguém que possui a pele muito escura, como a Coco, outra personagem.

Coco Conners (Antoinette Robertson) é uma das personagens mais complexas da série, sendo a responsável por levantar um número considerável de debates. Em um dos episódios, ao ir uma festa com suas três amigas de pele branca, Coco reproduz a realidade de muitas mulheres negras: a solidão. Após ser preterida em relação as brancas, que se encaixam nos padrões estéticos de beleza propostos pela sociedade, a personagem se vê sozinha até o esvaziamento do evento. A situação se repete acrescida da objetificação e hiperssexualização da mulher negra, quando ao perguntar as pretensões de um jovem branco com quem acabara de ter tido um encontro, obter como resposta: “posso contar aos meus amigos o sabor do seu chocolate, mas não posso te apresentar a minha família”.

Lionel Higgins (DeRon Horton) leva para diante das câmeras todas as suas dúvidas a respeito de sua sexualidade. No decorrer dos episódios, o jovem caminha em uma longa jornada, e se intitula como uma pessoa sem rótulos. O único protagonista gay cai no ostracismo em seu cotidiano e não consegue lidar com situações que envolvam relações interpessoais. Os jovens que diariamente escutam piadas homofóbicas com suas sexualidades, com certeza se identificam com Lionel, que além de sofrer com homofobia e racismo, lida com a paixão pelo colega de quarto heterossexual. Como forma de extravasar todos os seus sentimentos incompreendidos por ele e pela irmandade, o garoto escreve matérias para um jornal do campus e utiliza essa mídia alternativa como ferramenta de luta.

Troy Fairbanks (Brandon Bell) faz sucesso com a mulherada. Mas enquanto sua relação com as mulheres anda muito bem, seu entendimento pessoal vai de mal a pior. O jovem foi criado desde pequeno pelo pai dentro de um processo de aperfeiçoamento do homem negro, no qual ele deve ter todos os talentos possíveis e fugir de qualquer estereótipo que lhe defina como uma pessoa comum, não podendo cometer nenhum tipo de erro. Troy não consegue argumentar contra o próprio pai, e muitas vezes faz com que questões importantes, como a militância, fiquem de lado a fim de satisfazer o ego do pai, que também é negro e reitor da universidade em que ele estuda.

Já Reggie Green (Marque Richardson) é um personagem que não possui muitos conflitos internos, apesar da sua paixão mal correspondida por Samantha. Contudo, o personagem é responsável por vivenciar cenas que pensam os olhos. O jovem é confundindo com outro estudante negro da escola pelo seu professor, o comum “todo preto parece; todo preto é igual”. Além disso, ele transfere a realidade do racismo estadunidense para o racismo praticado no país ao ser confundido com um ladrão em um dos episódios. Segundo o Mapa da Violência: homicídios por arma de fogo no Brasil, entre 2003 e 2014, o número de assassinatos contra a população branca diminuiu 26,1%, enquanto dentre a população negra o aumento foi de 46,9%. No ano de 2003, morriam, proporcionalmente, 71,7% mais negros do que brancos. Em 2014 esse número disparou para quase 160%. Ou seja, enquanto morre um branco, 2,6 negros morrem no país.

Vidas opostas

O tempo todo a série mostra diferenciações culturais e existenciais por parte dos personagens. Coco e Samantha se tornaram melhores amigas assim que entraram na universidade. Compartilhavam de opiniões parecidas sobre as outras garotas, apreciavam meninos juntas e tinham opiniões parecidas sobre o racismo. Mas essa realidade muda a partir do momento que as duas se engajam no movimento negro da Winchester. Samantha se coloca como uma líder, dedicando a sua vida ao movimento, diferentemente da Conners, que conduz a sua luta a partir de suas ações cotidianas.

“Você não precisa ser uma escrava da causa”

A frase acima marca um dos diálogos mais intensos da série. Coco evidencia para Samantha a realidade de muitos militantes que não conseguem se entregar de maneira saudável ao movimento. Como diria Joelle Brooks (Ashley Blaine), outra personagem da série, “as vezes ser um preto despreocupado também é um ato de revolução”. Existir enquanto corpo preto na sociedade já é um símbolo de luta e resistência, logicamente, ficar parado não resolve muitas coisas, mas às vezes um corpo cansado precisa reabastecer as energias.

Coco nos ensina a ter empatia. Ao analisarmos as realidades dos protagonistas, podemos, inicialmente, julgá-la pelo fato de como ela lida singularmente com os atos racistas que ocorrem no campus. Mas ao longo da trama, a personagem se arquiteta e nos mostra que todas as pessoas possuem um passado. A jovem sofreu, viu parentes morrerem diante dos seus próprios olhos, fazendo com que ela tente se preservar a todo instante. Os militantes da irmandade brincam com um jogo criado por eles, chamado “acordado ou não”, no qual alfinetam os colegas do movimento e discutem se estão lutando pela causa. E em um dos momentos cruciais de discussão, Coco solta a seguinte frase: “O que importa se está acordado ou não, quando se está morto”, evidenciando que nem sempre se pode fazer o que os outros esperam e que cada pessoa possui uma forma de luta e autopreservação.

Outro contraponto apresentado na série se passa no quarto que residem Lionel e Troy. Ambos negros, mas com orientações sexuais diferentes, os dois jovens refletem a pluralidade da masculinidade negra. Troy é forte, musculosos e bastante corajoso, enquanto Lionel é magro, aparenta uma jovialidade que beira a adolescência, além de ser mais tímido perante os colegas da faculdade. Segundo R.W. CONNEL (2000;1997) masculinidades são lugares de privilégios que não devem ser vistos como ao equivalente de homem, pois são processos. Para ela, também existem masculinidades hegemônicas que se sobrepõem as masculinidades marginalizadas, ou seja, a masculinidade branca, heterossexual e rica se sobrepõe a masculinidade vivida pelos negros, pelos gays, pelos pobres e pelos transgêneros –  pontos de interseccionalidade que contribuem para outras formas de violência.

Lionel nos ajuda a pensar a interseccionalidade. O conceito sociológico foi empregado pela primeira vez em 1991, quando a feminista negra especializada em questões de gênero, Kimberlé Williams Crenshaw, realizou uma pesquisa que estudou as violências vividas pelas mulheres negras em classes desfavorecidas nos Estados Unidos. O conceito reflexiona as interações nas vidas das minorias entre diversas estruturas de poder. Crenshaw utiliza a analogia da intersecção de duas linhas que se cortam, e analisa problemas de justiça social. Se imaginarmos as ruas como linhas, podemos nomeá-las, como ruas de racismos, LGBTfobias, violência de gênero, entre outras formas de subordinação.  Uma mesma pessoa pode caminhar por diversas ruas, fazendo com que elas se cruzem, criando pontos de intersecção, a exemplo do Lionel, que caminha pela rua da homofobia e pela rua do racismo.

Empoderamento estético

“O que Assata Shakur diria para você sobre limpar sua conta por um megahair?”

“A imprensa feminina não mostra a negra, a índia, a japonesa; não mostra a pobre nem a velha – apresenta como ideal a mulher branca, classe média para cima e jovem (Buitoni, 1986, p. 78). Essa citação pode definir os sentimentos de Coco. A jovem faz parte, juntamente com Lionel, do eixo de personagens que, por algum motivo, não lidam bem com sua aparência enquanto negros. Neste ponto, ao mesmo tempo que a série acerta, ela erra usando a mesma temática. “As pessoas olham para mim e pensam que eu sou pobre, sem formação ou vagabunda. Por isso eu tento disfarçar e entrar para a irmandade”, afirmou Coco em uma conversa com Samantha. A jovem que sempre utilizou megahair como elemento compositivo de sua aparência, carrega um histórico de exclusão e maus tratos que pendura até os dias atuais, assim como já abordado por aqui.

Como solução, a personagem resolveu adotar medidas que a levassem a um processo de higienização do corpo negro, tomando traços que a levassem o mais perto possível do ideal de mulher branca. A partir da sua vivência, conseguimos entender o porquê de suas ações. Mas com o passar dos episódios, ela consegue se emponderar e, em determinado momento, assume seus cachos, se enegrece e enaltece sua beleza natural. O mesmo já não acontece com Lionel. O garoto sempre foi adepto do black power, mas em uma crise existência, o jovem decide raspar a cabeça, seguindo o conselho de Troy que disse que o certo seria “dar um jeito” naquela cabeleira. A mudança não veio como uma simples modificação no estilo, mas sim como uma forma de se parecer mais com os outros jovens negros que também eram carecas.

O emblemático episódio 5

Imagem relacionada

(Reprodução: Internet)

Uma festa. Jovens bebendo, se divertindo. Comemorar a vida. Tudo poderia ter terminado muito bem, caso o mundo não fosse racista e as pessoas entendessem que são racistas ou que comentem atos racistas. Em uma reportagem produzida pela Revista Galileu, Você é racista – só não sabe ainda, o veículo traz alguns dados sobre o racismo no país. Do conjunto dos 10% mais pobres do país, 70% são negros. Em entrevista, 90% afirmam que o Brasil é um país racista, mas 96% afirmam não serem racistas. OI!? A renda média daqueles que possuem onze anos de estudo também não é a mesma. Enquanto os homens brancos recebem uma média de $2.812,23, as mulheres negras recebem uma média de $ 1.399,34.

Na festa, começa a se tocar uma música que diz que os pretos já pegam uma arma antes mesmo de escovar os dentes, e que se ajoelham, é para atirar. Reggie, a vítima desta festa, começa a se incomodar com o tamanho absurdo que a letra propaga. Ao escutar o seu colega dizendo a palavra nigga – um termo pejorativo e extremamente racista nos Estados Unidos – Reggie pede para que ele não mais pronuncie essa palavra. O jovem branco, heterossexual, cisgênero e de classe alta, se incomoda e afirma não ser racista, mostrando somente preocupação com a sua imagem e desprezo com a causa negra, sem se importar com os sentimentos de quem realmente foi ofendido. Em seguida, Reggie pergunta ao amigo o que ele acharia de ser chamado de “palmitão” e o garoto responde: não me importaria.

Neste momento, Reggie explica a diferença de uma piada contra um grupo marginalizado e um grupo dominante na sociedade.  Após se desentenderem e a festa iniciar um tumulto generalizado, a guardado campus é acionada. Depois de entrar na festa, o guarda aponta uma arma de fogo para o jovem negro, o ameaça e ainda pergunta se ele é aluno da universidade. Mesmo com a confirmação de todos, inclusive do dono da casa, o guarda ainda continua ameaçando o garoto negro. Nada diferente do que a mídia brasileira não mostra, mas que é a realidade diária dos grandes centros e das periferias brasileiras. Jovens negros são violentados pela polícia diariamente, muitas vezes pelos simples fatos de serem negros, além de outros dados já apontados por este ensaio.

Representatividade

Em um país de população majoritariamente negra, espera-se uma grande representatividade negra na mídia, mas, infelizmente, não é isso que vemos no Brasil. Na tv, no rádio, no cinema, os negros quase nunca são protagonistas e na maioria das vezes se tornam coadjuvantes nos cenários brancos. Dear White People muda essa realidade ao trazer a cena elementos que enaltecem a cultura negra. Personagens negros humanizados por terem uma existência na série, não sendo somente pano de fundo, mas sim peças-chaves no enredo. Livres de estereótipos, os personagens carregam consigo histórias, características, e o principal, vida. Humanizados a partir de suas vivências, os protagonistas transparecem a realidade de muitos negros e negras carentes de representação midiática. Qualquer telespectador negro se reconhecerá em alguma das realidades que contemplam os mais diferentes públicos. Além disso, os roteiristas conseguem fazer com que os negros sejam tão humanizados ao ponto de pessoas brancas também reconhecerem nos personagens realidades existentes em seus cotidianos.

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